parte um

joão gabriel era diferente e não havia como não notar isso. nasceu diferente e todas as pessoas sempre fizeram questão de notar, eu mesmo teria notado, achado estranho e, provavelmente, feito algum comentário maldoso. desde criança aprendeu a agir com indiferença para os olhares de todo mundo e até passou a gostar, era mais notado que todas as pessoas mais bonitas de todas as várias escolas em que frequentou. seu semblante foi se tornando, enquanto crescia, mais confiante e até orgulhoso do que ostenta. fisicamente não haviam grandes desvantagens, quem diria vantagens, então, não era um empecilho tão grande assim, depois de anos de experiência aprendeu tudo sobre o que podia ou não fazer com seu dom, independente do quanto as pessoas demonstravam o asco habitual. uma pena que o sujeito invariavelmente chega na vida adulta, é quando a pena parece pesar muito mais que pena e pesa como elefante. é quando não sabe mais como deixar de transparecer a auto piedade, é quando o outro passa a nos encher com seus olhares e pensamentos e cinismo e tudo mais. é  aí que se perde a capacidade de transformar, infantilmente, deformidade em dom e gostar daquilo que já não era pra ter gostado jamais. joão gabriel era diferente e havia como não notar isso, mas se perdeu. joão gabriel não era só joão gabriel, era joão e era gabriel. joão gabriel tinha duas cabeças.

  

joão gabriel, quando se levantava, fazia o café como gente qualquer, ia ao banheiro como gente qualquer, não se vestia como gente qualquer, afinal, nem toda roupa que se compra por aí tem dois buracos para se colocar a cabeça, mas ele fingia que o fazia como gente qualquer, alimentava seu gato como gente qualquer, saía pela porta, e a trancava, como gente qualquer e esquecia e voltava para buscar seu chapéu como gente qualquer. um chapéu horrível, vale considerar, mas ser horrível lhe era importante já que, nas ruas, as pessoas o olhavam e só viam o quão horrível era esse seu porta-cabeça, só para uma delas, de fato. é que, perto de usar um acessório tão inadequado, ter duas cabeças só era tão ridículo quanto usar uma gravata colorida demais. antes ele realmente sabia como ser notado e se sentir como se não fosse, mas quando se cresce sempre se perde essas habilidades sobrenaturais que só as crianças realmente conseguem realizar, como já foi dito, e não custa ressaltar. é por isso que joão gabriel fez a difícil decisão de se livrar de seu anexo cefálico. ter uma segunda cabeça não significava ter mais dois olhos, mais um nariz, mais dois ouvidos, mas um cérebro, não mais uma boca que joão gabriel nunca foi de falar demais, mas, enfim, não passava de um anexo pendurado em seu ombro, balançando molemente e assustando gente, aquilo não funcionava como ele fingia que fazia, quando criança. já era passada a hora de arrancar esse pedaço quase insignificante de si mesmo, como fazem todos os adultos, colocara o chapéu horrível para ir no médico que já vinha consultando há algum tempo, em poucos dias seria comum, e, achava, ser comum é ser mais interessante. o grande problema foi despistar curiosos e jornalistas, que se mostraram simplesmente curiosos com equipamento, mas aquele chapéu era mesmo dádiva. conversou com seu médico, aquele de nome esquisito que só se lembrava ao ver o seu cartão, com os olhos da cabeça inútil, pelo visto, já que nunca se lembrava a partir do momento em que mudava o olhar para fora do pedaço de papel, fez exames, testaram-no, houve injeções, houve comprimidos e, afinal, houve confirmação da data da bendita cirurgia e, desde infante, joão gabriel não soltava um sorriso tão artificial, ainda sentia-se como se fosse uma amputação, de um pedaço inútil, é verdade, mas ainda era pedaço seu, afinal, mas, sobretudo, estava muito motivado. 

0 comentários:

Postar um comentário