pregou os olhos naquela noite pensando longe, daqui a algumas semanas quando, no lugar de um pescoço com uma cabeça pendente, haveria apenas um curativo, e depois de mais alguns dias, nem isso, apenas um ombro no qual as pessoas nem iriam olhar, só passar, quase não notar, desviar o olhar e seguir, ele fazendo o mesmo. caiu no sono e acordou com voz e pouca remela, ‘oi, joão gabriel, acorda, joão gabriel, joão gabriel, acorda!’ zonzo, tentou enxergar pelo quarto escuro quem o acordara, mas, certamente não passava de alucinação onírica. como não sabia, como a maior parte das pessoas, diferenciar o que acontece quando se está acordado, confirmou acendendo a luz pelo interruptor acima de sua cama. agora com certo lampejo de visão, depois de suas pupilas contraírem, pôde enxergar nada, só tinha parede, piso, a cerâmica, a pequena tv e tudo mais que sempre esteve em seu quarto, mas, como não custava nada, olhou para a cabeça segunda. pessoas com duas cabeças são coisa incomum, e acontecimentos incomuns provavelmente são comuns a elas e nada mais incomum que cabeças mortas, vivas, e foi o que joão gabriel enxergou, com devido espanto: um sorriso inédito a menos de dez centímetros de seu rosto, ‘oi, joão gabriel, tá acordado, joão gabriel, joão gabriel, acordou?’, ‘hã... acho que não, não costumo ouvir pedaços do meu corpo falando, exceto minha boca, às vezes’, ‘joão gabriel, deixe você de espanto que sempre esperou por isso, até fingia que eu falava, quando ainda éramos pequenos e tenros, seu safado!’, ‘mas que merda...?’, ‘olha a língua, joão gabriel, que mãe nunca nos ensinou a falar assim, mas você sempre foi a cabeça mais burrinha mesmo’, ‘peraí, depois de quase trinta anos você resolve funcionar só pra me ofender? é assim que funciona, é?’, ‘escuta, joão gabriel, não sou eu quem resolveu se livra de você, como é que pode, de repente resolver me cortar fora dessa forma, com essa cara de pau?’, ‘você nunca serviu pra nada a não ser ficar aí, balançando e chamando a atenção de todo mundo. todo achando que eu era um monstro de duas cabeças andando aí, uma aberração!’, ‘deixa disso, joão gabriel, que muito útil posso ser, não vê o quão inteligente devo ser, já que absorvi toda a esperteza que você não quis em todo esse tempo?’, ‘se fosse mesmo inteligente já teria aprendido a falar há muito...’, ‘ deixa de ser tondo que eu sempre estive aí, falando contigo, você é que nunca fez questão de ouvir, só agora, que a coisa se complica e você se caga de medo de perder um pedaço de si mesmo que você resolve ouvir o que deve, né?’, ‘e eu lá tenho alguma razão pra não te arrancar?’, ‘e por que teria alguma para me perder, assim?’, ‘ porque você é só complicação, todo mundo olha e acha feio e tem nojo e...’, ‘e desde quando isso é motivo, cabeça?’, ‘desde que nunca precisei de não ser normal’, ‘normal? comum, não?’, ‘que seja’.
depois de quatro semanas de adiamento da cirurgia e mais nenhum diálogo com a cabeça sobressalente, joão gabriel livrou-se dela e virou apenas joão, só não contava com o erro médico. o cirurgião chefe amputou, em doze horas de cirurgia inédita e complicada, a cabeça sem vida. difícil foi decidir qual.
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